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Juhlia Santos fala sobre ameaça de morte, guerra ideológica e solidão no Legislativo

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CÂMARA EM FOCO
Vereadora Juhlia Santos ao lado de jornalista da CMBH
Reprodução

No final de fevereiro, a vereadora Juhlia Santos (Psol) se viu diante de uma mensagem aterradora enviada a seu e-mail institucional. Com ofensas de cunho racista, transfóbico e homofóbico, o remetente a ameaçava de morte caso ela não renunciasse ao mandato. “É uma tentativa de nos paralisar, de nos barrar, mas sobretudo um recado sobre qual lugar nós podemos ou devemos pertencer”, afirma a parlamentar em entrevista ao videocast Câmara em Foco, iniciativa da Câmara Municipal de Belo Horizonte para levar aos cidadãos entrevistas em profundidade com os parlamentares do Legislativo Municipal. Durante a conversa, ela fala também sobre projetos de combate à intolerância religiosa, de promoção de saúde para população LGBTQIA+ e atendimento a mães em situação de rua. A vereadora também comenta como a atuação no Parlamento Municipal pode ser solitária para uma mulher que é a primeira quilombola e travesti a ocupar uma cadeira na CMBH. 

Sem recuar diante das ameaças

Juhlia considera que é desafiador “vocalizar aqueles e aquelas que, historicamente, não tiveram espaço de discussão, de fala e de pertencimento”. E a ameaça recebida "escancarou" isso. 

“Nesta Casa, as pessoas não me deixam esquecer de onde eu venho, o que eu trago, e qual a minha importância aqui. Mesmo pelos ataques, eles deixam nítida a minha importância aqui. E quando recebo essa ameaça e memorizo isso tudo, eu não tenho como recuar”, afirma.

A parlamentar lembra que a resposta da Câmara, assim que acionada, foi “imediata e muito humanizada”. Para ela, a preocupação não foi apenas com sua integridade física, mas também psicológica. Na sequência, a parlamentar acionou outras instâncias, como a Delegacia de Crimes Cibernéticos e a Secretaria Municipal de Segurança e Prevenção. Ela elogiou os profissionais, mas menciona que falta estrutura para executarem o trabalho. “Mesmo diante das fragilidades estruturais, os profissionais seguem fazendo o trabalho, e eu só tenho a agradecer quem vem me acompanhando desde então”, fala. 

Guerra ideológica

Em postagem em suas redes sociais, a parlamentar do Psol acusou alguns vereadores de transformarem a tramitação do Projeto de Lei (PL) 154/2025, que proíbe homenagens a escravocratas na cidade, em uma "guerra ideológica". Perguntada a respeito, Juhlia afirma que há vereadores com projetos que são “plataformas eleitorais, são formas de alimentar suas bases eleitorais e que, na prática, não têm uma efetividade na vida das pessoas”. 

“Essa Casa gasta tanto tempo discutindo projetos inócuos, projetos inconstitucionais, enquanto a vida do cidadão de Belo Horizonte se agrava a cada forte chuva na cidade”, critica.

Ela lembra que ao chegar na Câmara identificou o que chama de guerra ideológica. “As pessoas não dão conta de votar em um projeto, por mais que elas entendam como um projeto muito bom, por causa de uma ideologia partidária”, disse. “Vou derrubar o projeto, vou parar ele nas comissões, vou fazer várias 'manobras' que estão previstas no regimento para o projeto do meu colega que é bom para população. Mas não é bom para mim que ele ascenda politicamente, entende? Essa guerra ideológica vem desse lugar”, explica.

Ela diz não ter problemas em votar a favor de projetos que considera bons para a cidade, independentemente de onde partiu a proposta. “Eu acredito que, por mais que tenham ideologias partidárias muito diferentes das minhas, ainda assim podem surgir ideias boas, podem surgir projetos ótimos. E eu nunca me furtei de votar nesses projetos, porque tenho uma função social maior a ser cumprida nesse lugar. Eu acredito no meu trabalho. Eu acredito na transformação social que eu posso fazer nesse lugar”, afirma.

Convivência das diferenças

Juhlia Santos é autora do PL 347/2025, junto com outros seis vereadores, que trata do Programa de Assistência às Vítimas de Intolerância Religiosa. Para ela, toda a sociedade é vítima dessa intolerância. “Não é somente aquela igreja, aquele terreiro, aquele templo que foi atacado. Atrás desses espaços existe uma comunidade, existem famílias, existem pessoas, e a gente convive em sociedade. Então, se me afeta, em algum momento vai afetar você, vai afetar o outro”, afirma.

A parlamentar avalia que as pessoas têm dificuldade de conviver com as diferenças, e questiona o que será feito com pessoas que não partilham da mesma ideia. “Por exemplo, o que eles [conservadores] querem de fato fazer com a minha existência? Porque eu sou a dissidência máxima do que eles acreditam enquanto o que é certo. E o que não é certo, vai fazer o quê com isso? Vai varrer da sociedade? Vai criar um outro lugar apartado dessa sociedade?”, questiona.

Ela defende uma convivência social que não impeça o direito do outro. “Acredito que precisamos deixar de lado esse lugar de impor socialmente uma profissão de fé, uma identidade de gênero, o que for. As pessoas têm que ter autonomia sobre as suas próprias vidas”, afirma.

População LGBTQIA+ e mulheres em situação de rua

A vereadora fala da importância de criar políticas públicas de saúde voltadas a segmentos da população, como pessoas negras e LGBTQIA+. Ela é autora do PL 397/2025, que cria a Política Municipal de Saúde Integral da População LGBTI+. “Hoje, a rede do SUS não consegue atendimento humanizado que leve em consideração as especificidades, por exemplo, de mulheres lésbicas, que passam por violências obstétricas, que passam por violências, inclusive, no ato das suas consultas”, afirma.

Juhlia também comenta sobre o PL 308/2025, que cria o programa de atendimento humanizado a mães em situação de rua. A parlamentar avalia que as políticas existentes não são suficientes para atender esse público, e ressalta as situações de violência e vulnerabilidades às quais essa população está submetida. “Um projeto dessa natureza busca uma possível reinserção social dessas mulheres, porque talvez a partir do acolhimento humanizado no processo da gestação, no pós-parto, no puerpério, essas mulheres 'se reencontrem' com elas mesmas”, diz.

Solidão no Legislativo

Perguntada sobre uma fala durante a reunião especial “O Terreiro é Política Viva”, em junho de 2025, quando disse ser "solitário" estar na Câmara sendo “uma travesti preta, quilombola e macumbeira”, ela garante que a realidade não mudou. “A sociedade não está refletida diretamente na composição da Casa”, diz.

No entanto, a parlamentar aponta mudanças. “As pessoas, cada vez mais, estão se sentindo pertencentes às discussões políticas do país. Eleger alguém que vai te representar – porque nós somos representantes da sociedade – minimamente tem que parecer com você.  Parecer nos seus ideais, nas suas dificuldades, no seu cotidiano, parecer esteticamente”, afirma.

Juhlia Santos defende que a sociedade deve ser um espaço de convivência das pluralidades, incluindo a diversidade religiosa. “Eu, enquanto representante do povo, não posso ter a minha prática de fé ou a minha religião enquanto um balizador da minha conduta aqui dentro”, diz.

Em outro momento da entrevista, questionada sobre o legado que pretende deixar para a cidade, ela afirma que não é a vereadora apenas de pessoas LGBTs, negras ou periféricas. “Eu sou a vereadora de Belo Horizonte. Lógico que o meu trabalho tem um foco, e ele parte dessas pautas prioritárias porque, historicamente, essa Casa não tem dado conta”, afirma.

“Talvez, todos os dias, eu lembre os vereadores e vereadoras que, para além do seu grupo político, existem outras pessoas; por mais que eles não queiram trabalhar e efetivar políticas públicas para essas pessoas. Mas Belo Horizonte não é essa cidade conservadora que eles tentam pregar”, reflete. 

Superintendência de Comunicação Institucional

Data publicação: 
quarta-feira, 25 Março, 2026 - 13:45
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