Robótica pode atuar como ferramenta de transformação e inclusão nas escolas
Desafio é criar política perene em currículo rígido. Cerca de 120 escolas já realizam atividades relacionadas à tecnologia
Fotos: Rafaella Ribeiro/CMBH
A democratização do acesso à robótica educacional, a formação de professores e a implantação de uma política pública permanente para a educação digital nas escolas municipais foram os principais temas debatidos em audiência pública realizada na manhã desta quarta-feira (5/8) pela Comissão de Educação, Ciência, Tecnologia, Cultura, Desporto, Lazer e Turismo. O encontro foi solicitado por Professora Nara (Rede) e Helton Junior (PSD). Helton, junto de outros oito vereadores, assina o Projeto de Lei (PL) 434/2025, que institui a Política Municipal de Robótica e Letramento Digital nas escolas públicas de Belo Horizonte. A proposta foi aprovada em 2º turno pelo Plenário na terça-feira (4/8). Durante o encontro, os participantes apresentaram a robótica como ferramenta de transformação, inclusão e futuro para jovens estudantes de escolas públicas. Representantes das escolas municipais argumentaram que a política é importante, que há orçamento, mas que "currículo rígido" seria dificultador. A Prefeitura de Belo Horizonte, que em 2021 investiu cerca de R$ 10 milhões na compra de kits de robótica, reconheceu os desafios, trouxe dados de atividades das unidades ligadas à tecnologia e contou que um Plano de Educação Digital e Midiática vem sendo construído.
Política de Estado
Ao abrir a audiência, Professora Nara destacou que o acesso à robótica vai além da aprendizagem tecnológica. "Não é apenas tecnologia, mas acesso a uma nova maneira de pensar", afirmou.
Helton Junior lembrou a própria experiência como estudante para defender a ampliação das oportunidades na rede pública. Segundo ele, o objetivo não é estimular a competitividade, mas mostrar que carreiras ligadas à tecnologia podem fazer parte da realidade de estudantes do sistema público. "O desafio é fazer com que essa seja uma política real em todas as regiões da cidade; que seja uma política de Estado, e não de governo", afirmou.
Robótica como ferramenta de transformação
Convidados da audiência apresentaram experiências que relacionam a robótica ao aumento do interesse dos estudantes pela escola, ao desenvolvimento de competências e à inclusão social.
Presidente do Instituto Amigos Droids, Sérgio Lana destacou a conquista do título mundial da equipe brasileira no FIRST Challenge, em Houston (Estados Unidos), e afirmou que o reconhecimento é resultado de uma década de trabalho. Ele acredita que é possível levar a experiência à rede pública.
"Robótica de qualidade ainda é muito cara, e isso mantém grande parte dos estudantes fora dessa oportunidade. A boa notícia é que ela é um dos principais incentivadores da permanência dos jovens na escola pública", afirmou Sérgio Lana.
“Derrubar a barreira do acesso”
Vice-presidente do instituto, Heitor Oliveira Lana apresentou o programa FX4, desenvolvido para reduzir custos e facilitar a implementação da robótica nas escolas. Segundo ele, a metodologia combina equipamentos de baixo custo, plataforma de apoio a professores e alunos, e acompanhamento pedagógico. "Queremos derrubar a barreira do acesso à robótica pelo custo, pela facilidade de uso e pela formação", disse.
Durante a audiência, Heitor relatou a trajetória do estudante Felipe, que deixou o trabalho na lavoura após participar das oficinas promovidas pelo instituto em uma escola de Caeté (MG), e passou a integrar a equipe campeã mundial.
Inclusão de meninas e futuro
Vencedora do Leadership Award, Sofia Oliveira Lana ressaltou que a robótica pode ampliar as oportunidades para meninas em áreas tradicionalmente ocupadas por homens. Segundo ela, a robótica lhe permitiu desenvolver habilidades como programação, liderança e comunicação.
"Crescemos vendo que este não era um ambiente para meninas. Não por falta de capacidade, e sim de oportunidade. Não sou a prova de que posso chegar onde quiser, mas de que qualquer menina pode chegar onde quiser”, afirmou a estudante.
Capacitação e rigidez pedagógica
Para o CEO da empresa, Havilah Lucas, embora muitos estudantes já utilizem ferramentas de inteligência artificial (IA), isso não significa que estejam preparados para empregá-las de forma crítica e responsável. "Usar inteligência artificial não é o mesmo que ser letrado em IA. O primeiro passo deve ser a capacitação dos professores e a construção de uma base curricular que permita acompanhar os resultados."
Representando a empresa Exxer, João Pedro Expedito Silvério também chamou atenção para a necessidade de investir na formação docente. Segundo ele, escolas municipais receberam kits de robótica nos últimos anos, mas parte dos equipamentos permanece sem utilização. "Se o professor não acredita e não recebe treinamento adequado, será dinheiro jogado no lixo", afirmou.
Diretor da Escola Municipal Prefeito Souza Lima, Henrique Gomes Rosa avaliou que o principal obstáculo para ampliar a robótica nas escolas não é a falta de recursos, mas a rigidez da estrutura pedagógica, que não permitiria reestruturar conteúdos e recursos humanos.
"Temos professores capacitados, porém sobrecarregados. As regras são muito rígidas e acabam dificultando o desenvolvimento das atividades. Temos o desejo e alunos capazes, mas precisamos destravar essas estruturas", afirmou o diretor.
Plano de Educação Digital
Representando a Secretaria Municipal de Educação (Smed), Erica Abranches informou que a secretaria está implantando um Plano de Educação Digital e Midiática construído de forma colaborativa e já aprovado pelo Conselho Municipal de Educação. Segundo ela, o plano estabelece ações até 2028 e prevê formação continuada de professores, disponibilização de cursos e plataformas digitais, além da elaboração de diretrizes para o uso da inteligência artificial nas escolas.
Em resposta a questionamentos dos vereadores, Érica informou que 117 escolas receberam kits de robótica e capacitação em 2025; 122 unidades encaminham relatórios sobre atividades relacionadas à tecnologia; 682 professores participaram de cursos de formação na área de tecnologia e a Escola Municipal Arthur Guimarães já incluiu a robótica em sua grade curricular.
Encaminhamentos
Ao encerrar a audiência, Professora Nara comemorou a diversidade de experiências apresentadas e destacou a importância do diálogo para o fortalecimento da educação digital no município. A parlamentar solicitou que os dados apresentados pela Smed sejam encaminhados oficialmente à comissão. Helton Junior também avaliou positivamente o debate e afirmou que os relatos dos profissionais da rede municipal ajudam a identificar os desafios que precisam ser enfrentados para que a política pública se concretize nas escolas.
Superintendência de Comunicação Institucional



